DESIGN E SOCIEDADE

PUBLICADO EM 24 de janeiro de 2019

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A Associação dos Designers Gráficos do DF

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No caminho de escrever sobre o design para o meu TCC da formação em Pedagogia Waldorf me dei conta de que as pessoas não entendiam nem se interessavam sobre o design como eu, sobretudo porque eu estava pensando e escrevendo sobre o “pensamento do design” e não sobre a prática. Demorei para lembrar que as pessoas têm imagens prontas para as palavras e no caso do design é uma salada mista: Design de sobrancelhas, design de moda, design de interiores, design de superfície, design de produto, design gráfico, design thinking, Apple, Nike, Louis Vuitton, Philippe Starck e por aí vai…
Foi desafiador trazer para leigos a minha imagem sobre o design e a tarefa do designer. Me lembrei então da inspiração do Gui Bonsiepe e sua vasta bibliografia para me auxiliar na pesquisa. Não tínhamos muita literatura disponível no meu tempo de faculdade e o primeiro livro sobre design que eu encontrei para vender em uma livraria, foi de Gui Bonsiepe: Desenho Industrial, tecnologia y dependência. Mais tarde tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, numa situação daquelas de arrepiar os cabelos: no dia da apresentação do TCC de conclusão de curso. Eu congelei quando soube que ele fazia uma visita à UnB e tinha sido convidado para assistir à apresentação. Saber que ele estaria ali foi um misto de susto e emoção, que claro me deixou trêmula.
Nosso TCC foi sobre a análise de um projeto de identidade visual e linha de embalagens de uma tradicional empresa de avicultura de Brasília, e era também o nosso primeiro grande trabalho no mercado. Escrevo no plural porque foi escrito a seis mãos, eu, Fátima Leão e Renata Borsoi, então sócias da recém nascida Caju Design. Estávamos diante do desafio de colocar na prática a teoria e, pela primeira vez, também sentindo na pele as imposições e limitações do mercado. No trabalho analisamos a solução que consideramos ideal e também a que foi aprovada pelo cliente. Ao fim, ele nos parabenizou pelo trabalho (ufa!) e fez uma ressalva, me lembro até hoje de suas palavras: “…vocês deveriam ter convencido a empresa a ficar com a proposta ideal, é realmente muito boa. Meninas não desistam nunca, não deixem o mercado vencer o design!”
Já fiz vinte anos de formada, a Só Frango foi vendida para Sadia, eu infelizmente deixei o mercado vencer o design outras vezes, o ensino e a pesquisa sobre o design cresceram e mudaram bastante, o mercado nem se fala, mas percebo que mostrar para as pessoas(clientes) que design é mais que dar uma ajeitada no produto ou fazer um desenho(marca) bonito, ainda é um desafio da atualidade. Gui Bonsiepe, com seus 83 anos, por graça ainda atua e nos deixa como legado a luta para trazer a “essência do design” para os designers do Brasil e do mundo.
Lendo seu livro Design, Cultura e Sociedade, relembro seu conselho.  Ele me faz novamente um convite para repensar sobre o papel do designer na sociedade e traz sua visão polêmica, mas na minha opinião necessária, sobre o consumismo e seus reflexos desastrosos.
No site da AGITPROP- Revista Brasileira de Design encontrei uma resenha sobre este livro escrita pelo arquiteto e professor Pedro Fiori Arantes e a resposta do Gui Bonsiepe ao texto. Achei interessantíssimo, rico e tão necessário para refletirmos sobre esses tempos estranhos que temos vivido, por isso senti vontade de compartilhar aqui neste blog. A leitura é longa, mas valiosa. Aproveitem!
Angélica Lira, é Designer Gráfica formada na Universidade de Brasília, com Pós graduação em Design Estratégico no IED/IESB e também com formação em Pedagogia Waldorf pela 4º turma do curso de Formação em Pedagogia Waldorf de Brasília
Quando o design era uma causa e não um estilo
Pedro Fiori Arantes
Livro: Design, cultura e sociedade Autor(a): Gui Bonsiepe Editora: Blucher  Postado: 05/03/2012
Mesmo que seja desnecessário apresentar Gui Bonsiepe, talvez possamos dizer que ele é um defensor de primeira grandeza da “boa causa” do design – entendida como a pesquisa de soluções para as necessidades de massa, a defesa da virtude pedagógica do bom desenho e a tentativa de participar, por meio dos objetos, do processo de transformação da sociedade. Ele é, na América Latina, continente que escolheu quando saiu da Alemanha no fim dos anos 1960, passando pelo Chile de Allende, um dos principais herdeiros do legado do projeto moderno da Bauhaus e da Escola de Ulm, da qual foi aluno. Diante da rarefação crítica do debate em torno do Design, seu novo livro Design, cultura e sociedade (Editora Blucher, 2011) é mais do que bem vindo, é leitura obrigatória para todos aqueles que desconfiam do fetichismo que aprisiona o design no universo fashion do consumo acelerado.
Suas afirmações e questionamentos vieram para “incomodar a festa do mundo belo do design”. A tarefa que se arroga, da primeira à última página, é o combate ao design transformado em estilo, em evento midiático, submetido ao marketing, ao fun e identificado com superfícies sedutoras. E o faz em nome dos princípios construtivos do design moderno que, por um momento, na formação das sociais-democracias européias, fez parte de um programa mais amplo de uma sociedade de abundância, mais igualitária e humanista. Bonsiepe está, assim, empenhado em reivindicar para o design novamente aquele sentido forte da noção de projeto, como ação racional, antecipatória e civilizadora. Nesse sentido, revisa a herança da Bauhaus e, sobretudo, da Escola de Ulm, da qual fez parte – como momentos na história do design em que este, era, antes de tudo “uma causa e não um estilo” (parafraseando a expressão-título de Anatole Kopp a respeito do projeto moderno na arquitetura).
Para tanto, Bonsiepe propõe uma metodologia projetual em design, que combina teoria e prática de modo inovador, fortalecendo sua dimensão interdisciplinar – entre as ciências e as humanidades – embora preservando as especificidades do seu campo e sua competência projetual. Ele exige dos designers razões objetivas (e mesmo científicas) para as tomadas de decisão, questionando o subjetivismo autoral como resposta às necessidades da produção e da reprodução da vida cotidiana. Nesse sentido, reafirma o design como ferramenta de resolução de problemas que afetam o dia-a-dia e que exigem do projetista o conhecimento pleno da relação entre objetos, usuários e sociedade – incluindo o plano simbólico. E, mais que isso, reivindica a rearticulação do design com um projeto social mais amplo, a criação de um “espaço de autodeterminação” em um contexto de democracia radical e redução de desigualdades.
Os argumentos de Bonsiepe são convincentes a ponto de nos perguntarmos, afinal, por que a boa causa do Design foi abandonada? Parece lógico e mais do que razoável que a retomemos antes que seja tarde. Contudo, devemos nos perguntar se, no capitalismo global sob comando das finanças e do espetáculo, há espaço para o avanço de tal projeto – que não deixa de ser, ainda, o da razão iluminista. Quem é seu atual portador? Um estado esclarecido na defesa do interesse público? Empresas conscientes de seu papel social, refreando o ímpeto mercantil? Uma esfera pública que mediaria o conflito no interior da sociedade civil? Consumidores organizados ou neoproletários da era digital? O fato é que, ao longo do livro, não fica claro de onde partiria a inspiração e a ação para essa reforma do design (ou a retomada de seus fundamentos). Por isso, Bonsiepe ainda arroga aos designers uma posição demiúrgica (ou uma consciência de classe?): no limite, seriam eles próprios os portadores do esclarecimento e da razão objetiva imanente ao mundo justo das coisas bem desenhadas. A eles caberia civilizar a barbárie corporativa, o fetichismo consumista, a favor dos princípios de um “humanismo projetual”.
Mas o designer está inelutavelmente incorporado ao emaranhado de agentes que fazem parte do sistema produtor de mercadorias, quase sempre em posição subalterna. Sua autonomia é, portanto, limitada ou inexistente. E, mesmo que pretendessem levar a termo a boa causa de Bonsiepe, creio que a imensa maioria da “classe criativa dos designers” não vive crises de consciência e está mesmo aproveitando a aceleração do ciclo de consumo que o capitalismo promove.
Sem deixar de reconhecer os méritos de Bonsiepe em procurar reatualizar toda essa tradição, imagino que uma forma possível de reatá-la estaria justamente em questionar melhor o conjunto dos processos de produção, circulação e consumo dos objetos do design, isto é, da ciranda fantasmagórica das mercadorias no capitalismo atual. Apesar de retomar temas que lhes foram caros, como as desigualdades tecnológicas entre centro e periferia e revisitar a teoria da dependência, Bonsiepe não trata propriamente da mundialização do capital, das empresas em rede, da acumulação flexível, da financeirização da economia, enfim, de aspectos que condicionam o design na contemporaneidade. Daí um certo sentimento extemporâneo em momentos do livro, mesmo quando trata de temas atuais, como o design da informação.
Em 1963, Argan já colocava em dúvida, em seu conhecido texto “Projeto e destino”, a capacidade emancipadora da noção de projeto numa sociedade tecnológica e cada vez mais anti-humanista. Naquele momento apontava para a tendência destrutiva da indústria, que aniquilou o objeto e seu valor de uso em nome da imagem vendável – tema que será, poucos anos depois, desenvolvido por Guy Debord em A sociedade do espetáculo. Para Argan, não há projetação crítica no mundo da mercadoria, só na arte. Ou, noutros termos, só haverá perspectiva crítica no design industrial se ele deixar de ser guiado pelo fim último do lucro.
O ponto cego do projeto moderno de Bonsiepe é retirar o design do lugar que ocupa no aparato econômico que o define enquanto parte da sociedade produtora de mercadorias.A ausência dessa problematização é que permite o dualismo entre causa e estilo, fórmula insuficiente para compreender o lugar nada marginal que o design ocupa na reprodução sistêmica do capitalismo na era das marcas.
O design como estilo, como estímulo aos desejos, portanto ao consumo, não é um fenômeno novo – é mesmo contemporâneo daquele momento em que foi uma causa para uma sociedade mais democrática. O economista John Galbraith, lembrado por Bonsiepe, já apontava para isso no início do século XX: o que denominou “passagem da economia da necessidade para a economia do desejo” era um passo necessário para o avanço da forma-mercadoria e o aumento das taxas de lucro. Galbraith explica que, diferentemente das necessidades, que são saciáveis, os desejos são infinitos e, por isso, o aspecto sensível dos objetos (o estímulo aos sentidos) passa a ter função econômica. O autor, coerentemente, aponta o design e o marketing como elementos decisivos das novas técnicas mobilizadas para manter e expandir o poder das grandes corporações.
Ao contrário do styling, que era uma forma degradada de gerar novos modismos por mudanças epidérmicas nos produtos, o branding retoma, na chave hiper-mercantil, premissas de coerência e integralidade do design que estavam postas pelo projeto moderno. O branding, ou design de marcas, recoloca o design no centro da tomada de decisões de enormes complexos financeiro-industriais. Gostemos ou não, o design no mundo das marcas está mais do que nunca tratando do núcleo duro de produção e reprodução material e simbólica do capital em sua fase atual. No branding, o design procura dar coerência a todos os elementos visuais de uma corporação, dos objetos à sua comunicação. Trata-se da construção de identidades que fundamentam a capacidade da empresa capitalista em obter rendas monopolistas advindas da exclusividade da sua “experiência de marca”. Ou seja, o programa de um design ampliado a todas as esferas da vida, se espraia por todos os cantos de uma grande corporação, e talvez seja – ironicamente – a maior realização da promessa de design total que já estava semeada no projeto moderno, na Bauhaus e Ulm.
Bonsiepe não leva ao limite a interpretação das consequências do avanço implacável da forma mercadoria sobre os objetos da vida cotidiana.Como resgatá-los dessa condição mercantil, ou melhor, como desmercantilizá-los? É possível salvar a boa causa do design do capitalismo? Ou ainda, é possível salvá-la no capitalismo? Diante da cultura anticrítica dominante, como esperar a existência de uma relação crítica com os objetos que nos cercam?
Os casos escolhidos e os objetos comentados são, quase todos, de pouca relevância ou marginais na reprodução material e simbólica do capital hoje. Bonsiepe não chega a tratar do aparato militar-informacional e suas mercadorias-chave, dos novos carros aos caças de guerra, dos celulares aos tablets, da TV interativa ao cinema 3D, das próteses aos equipamentos de diagnóstico por imagem, da cyber realidade aos games, das interfaces das redes sociais aos sistemas digitais de controle e vigilância etc. Esse sistema de objetos (ou objetos do sistema) da contemporaneidade, turbinados pelo poder das grandes corporações, portadores de novas artimanhas fetichistas da era digital, com suas velhas e novas formas de sedução, perversão e destruição, deveria ser objeto da critica radical.
Veja-se o caso emblemático da Apple. Steve Jobs (mitificado ainda em vida), Jonathan Ive (o chefe da equipe de designers), e seus i-gadgets que entretêm as classes abastadas (e não só) são considerados o maior caso de sucesso da história recente do design. E os produtos da Apple, mercadorias em estado puro, talvez coloquem em questão o dualismo de Bonsiepe entre a boa forma bauhausiana e o design rebaixado a estilo de vida. Ali ambos parecem ter encontrado uma poderosa síntese, mas sem superação (pois não há negatividade) – a não ser a superação na estratosférica escalada de lucros. A Apple cumpre a promessa do design como “resolução inteligente de problemas” e “competência projetual” – de forma mais extensa e radical do que a velha Braun, pois não alterou apenas a forma de barbear, mas a própria ação comunicativa por meio de suas interfaces digitais.
Seria preciso perguntar qual a promessa do modelo Apple de Design? E no que se diferencia do projeto moderno revisitado por Bonsiepe? Se a Apple atualiza o paradigma da boa forma, ela revela igualmente o fundo falso, ou formalista, da própria causa moderna do desenho – ao mesmo tempo em que recalca sua articulação com um projeto de transformação social mais amplo. A boa forma reluz e ofusca, deixando na sombra a vontade de emancipação – o objeto do desejo é um fim em si. A transformação social que lhe interessa é a revolução sistêmica, que ela própria põe em curso a seu favor. Os objetos bem desenhados da Apple encobrem mecanismos engenhosos de aprisionamento de mentes e gestos, e deflagram engrenagens de sucção de dinheiro. Se a maçã mais poderosa desde Newton (e Adão) encarna o Poder do Design, ela condiciona comportamentos e cria mercados exclusivos para alimentar suas maquininhas fetichistas de usuários em transe (os apple addicts, que fazem filas na neve a espera dos novos lançamentos). Seu design total revela-se, na verdade, totalitário. Se, ainda por cima, enveredarmos pelo misterioso e oculto campo da produção, descobriríamos que o trabalho ainda forja esses brinquedos tão sedutores quanto perversos em fábricas implantadas em países pobres e/ou com regimes autoritários, nas quais são recorrentes as denúncias de uso de trabalho degradante, precarizado e subremunerado (como de outras grandes corporações). O quadro se completa com a extração predadora de matérias-primas e a destinação incerta desse crescente e descartável lixo digital.
As condições de trabalho e as relações de produção que submetem quase todas as mercadorias a um processo de “chinificação” – tema que deveria ser central em uma crítica radical ao design – não são abordadas por Bonsiepe. Para ele, a centralidade da contradição está nas relações entre projetistas e usuários, em termos de usabilidade e da dimensão simbólica dos produtos – o que pode levá-lo a recair em uma posição instrumental. Seria possível um design humanizado, crítico, racional diante da mais vil exploração a que têm sido submetidos os trabalhadores nas novas fronteiras industriais (e mesmo nas menos novas, como a nossa)? Ou seja, é possível a defesa do usuário dissociada da defesa do produtor? Parece razoável afirmar que só existe “humanismo projetual” ou “design emancipatório” se ele ocorrer não apenas na mesa das pessoas, mas também no chão de fábrica – o que implica ampliar novamente os termos da questão: repor as contradições entre capital e trabalho e integrar o design a todo o complexo financeiro-fabril das empresas em rede em que está emaranhado – para então pensar como destacá-lo como parte de um outro projeto de sociedade.
Não se pode salvar o design sem salvar os produtores do design (muito além do próprio designer).Isso significa reafirmar que a relação entre designers e produtores deve ser reinventada numa aliança entre projetistas e operários – sob pena do discurso esclarecido dos objetos da vida manter ocultos os perdedores dessa causa. E não se trata apenas de garantir legislação trabalhista, mas de voltar a questionar a premissa de design como “desenho separado”, trabalho intelectual que é atributo de poucos, enquanto os demais estão condenados ao trabalho fragmentado e alienado da divisão avançada do trabalho nas grandes indústrias. Isso significa redefinir os métodos de projeto para além do círculo privilegiado dos técnicos bem formados.
Como Bonsiepe, também não sou defensor da dialética negativa e dos braços cruzados diante do avanço da barbárie em uma sociedade em estado de emergência. Como arquiteto, atuo em um coletivo que apóia movimentos sociais e realiza projetos que, a seu modo, tentam superar a forma-mercadoria e propor novas relações sociais, políticas e ambientais – mesmo no contexto adverso em que vivemos. Por isso, embora me alinhe nas fileiras da defesa de um design humanista, democrático, racional e fundado em uma consciência crítica, creio que ele só pode existir desse modo se for concebido como atividade projetual socializada e em aliança com coletivos de produtores livremente associados (cooperativas, movimentos sociais, fábricas autogeridas, assentamentos de reforma agrária etc).  Nesse sentido, é possível pensar num design contra-hegemônico ou num contra-design, como faz Bonsiepe a respeito das contra-identidades. Experimentá-lo é uma tarefa árdua, pois nadamos contra a corrente, fora da lógica do mercado, desamparados de políticas públicas à altura dos desafios e mesmo sem interlocutores preparados para levar ao limite suas possibilidades.O que consideramos racional e plausível não tem condições objetivas para ser viabilizado em maior escala. E talvez tenhamos que assumir nossa condição marginal e continuar experimentando em situações restritas, documentando ao máximo os processos e produtos para que possam um dia servir de referência para iniciativas mais amplas. Se esse empenho projetual e construtivo é necessário, de outro lado, não podemos abdicar da crítica radical ao sistema, de travar a batalha das ideias nesse campo onde estão plantadas maçãs apetitosas e envenenadas.
Pedro Fiori Arantes é arquiteto e urbanista, doutor em Tecnologia da Arquitetura pela FAU-USP e professor de História da Arte na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). É integrante do coletivo Usina e ex-professor de Fundamentos Sociais do Design na Facamp
Resposta à resenha de Pedro Arantes
Gui Bonsiepe
Livro: Design, cultura e sociedade Autor(a): Gui Bonsiepe Editora: Blucher  Postado: 04/07/2013
Prezado Pedro Arantes,
Agradeço pela resenha crítica e substanciosa do livro (leia aqui a resenha: http://www.agitprop.com.br/index.cfm?pag=leitura_det&id=171&Titulo=leitura). Em geral, não respondo às críticas dos meus textos, porém nesse caso faço uma exceção, pois os argumentos levantados merecem uma resposta.
Se entendo bem, sua crítica considera como um dos pontos mais débeis do livro a falta da resposta à pergunta de onde partiria uma reforma do design – em vez de reforma eu diria não-abandono das ruínas dispersas do projeto moderno.
Longe de mim pretender uma reforma do design na época do capitalismo global. Meu objetivo era – e é – muito mais modesto: contribuir para uma melhor profissionalização dos designers industriais e gráficos, pois, ao final das contas, o designer é um profissional que deve solucionar problemas na sociedade atual; e isso sem esconder as limitações da ação num sistema altamente complexo com interesses antagônicos de alguns dos diferentes atores mencionados na resenha: um estado esclarecido, uma esfera pública, consumidores organizados ou o neoproletariado digital, o que deixa prever que não será a profissão dos designers supostamente demiúrgicos e até megalomaníacos que salvará o mundo.
Minha perspectiva não incluía a esfera da produção e circulação enfatizada por sua crítica. É um aspecto de análise para outro livro. Porém o juízo do caráter extemporâneo das minhas observações sobre a mundialização do capital e outros aspectos que condicionam o design na atualidade não é justificado; pois, no último capítulo sobre Inovação, Design e Globalização,menciono explicitamente o Consenso de Washington e os interesses por trás desse ‘consenso’ que desejam manter a atual divisão de trabalho atribuindo aos países periféricos a função de exportador de commodities, vale dizer produtos sem componente projetual.
Não é a primeira vez que se cita Argan, que tinha – como é sabido – uma postura crítica frente à indústria capitalista, caracterizando o design de produtos como contaminado pelo afã do lucro e condenado a ser partícipe na continuação de um sistema que não tem espaços emancipatórios.
É uma postura do extremismo do ‘Tudo ou Nada’ – compreensível para um crítico fora do sistema industrial. Argan eleva a Arte como único espaço de atuação crítica projetual com potencial de emancipação, e isso em forma apodíctica com a qual, como designer, não concordo. Em outras palavras: considero a postura de Argan não pertinente, pois de antemão condena com uma sentença gratuita qualquer intento de atuar dentro do sistema industrial atual.
É expressão de uma valorização cultural pessoal que pode merecer respeito, porém da qual não compartilho. Concordo, pelo contrário, com uma postura crítica, porém uma consciência crítica que chega com mãos vazias não incomoda os defensores do status quo. Só uma letra difere a ‘d-enúncia’ da ‘r-enúncia’. Só uma linha muito fina separa as duas maneiras de enfrentar a realidade. No livro advogo por uma não-renúncia projetual, pois caso contrário defenderia uma capitulação frente à realidade como ela é.
Com relação ao suposto ponto cego de minhas reflexões sobre o projeto moderno, a conclusão de que retiro o design do lugar que ocupa no aparato econômico não leva em conta que um objeto da minha crítica é justamente o branding que tende a instrumentalizar o design empurrando-o para a dimensão simbólica e assim ocultando a materialidade da produção.
A história da Apple do Steve Jobs que levou o design ao centro da política empresarial permite uma leitura diferente. Pergunto-me se podemos desqualificar todos os produtos da Apple como gadgets. Quais seriam as não-geringonças, supostamente com uma função ‘séria’? Existe uma ligação intrínseca entre as condições inaceitáveis de produção nas fábricas na Ásia e o design desses mesmos produtos? Podemos responsabilizar o design dos produtos da Apple pelas condições de exploração nas fábricas desses mesmos produtos? Parece-me uma interpretação sem as devidas diferenciações, quase com um toque maniqueísta.
Em vez de acusar os usuários dos i-phones como fetichistas e vítimas do poder sedutor do design, seria talvez mais desafiador tratar de explicar e compreender a fascinação dos compradores e usuários por esses produtos – uma tarefa que requer pesquisa empírica e não um juízo generalizante. São verdadeiramente venenosas todas as maçãs simplesmente pelo fato de serem sedutoras? Uma visão tão apocalíptica bloqueia a compreensão de uma realidade complexa e contraditória. O fato de que a língua pode ser usada para mentir não é um argumento para abdicar do uso da língua. Precisa-se fazer uso da língua para desmascarar mentiras.
O fato de que cada produto arrasta como sombra suas condições de produção já foi constatado por Walter Benjamin (não existe documento de cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie). Porém, isso desqualifica qualquer produto de antemão? Então o que fazer? Não sobrecarregaríamos o design se esperássemos superar a partir do design – e enfatizo a partir do design – as contradições internas do sistema atual de produção, distribuição e consumo? Existem no porão pés-de-cabra mais fortes que o design para quebrar a estrutura da sociedade tardo-capitalista.
Como é sabido, o design está intimamente imbricado com a estética da mercadoria – um fato implacavelmente criticado já no começo dos anos 1970, o que levou a um efeito de paralisia: “No ambiente capitalista o design cumpre uma função comparável à função da Cruz Vermelha na guerra. Cura algumas poucas – nunca as mais graves – feridas provocadas pelo capitalismo. Pratica cosmética e prolonga o capitalismo como a Cruz Vermelha prolonga a guerra, enquanto tem um efeito embelezedor e mantém em alto a moral (1)”. Pelo menos o crítico é generoso o suficiente para conceder ao design uma função curadora.
Para superar os impasses e contradições do design, você procura uma solução – não a solução exclusiva – na aproximação entre projetistas e produtores concretos nas fábricas, similar às tentativas do design participativo nos anos 70.
Na arquitetura foram feitos experimentos desse tipo para incluir os moradores no processo projetual de planejamento e na construção de casas e bairros. Christopher Alexander formulou: “Em outras palavras, não somente deveriam ser incluídos os moradores nos edifícios construídos para eles, mais eles deveriam ajudar efetivamente no design desses edifícios (2)”.
Ainda que bem intencionados, as tentativas, não deram certo. Lamentavelmente. No campo da arquitetura correu-se o risco de uma desprofissionalização. Numa fase se fomentou o amadorismo, em outra fase a  interdisciplinaridade. Posteriormente foi abandonado. Sobreviveu na forma do advocacy planning (3).
Tenho dúvidas se o design participativo funciona no caso de produtos industriais de maior complexidade – e isso sem levar em consideração as relações sociais de produção pouco propícias para esse tipo de experimento. Porém, o sistema não é tão hermético. Existem interstícios que permitem intervir com práticas não- reprodutoras do status quo.
Cordiais saudações,
Gui Bonsiepe
Florianópolis, 22 de maio 2013.

Notas
(1) Haug, Wolfgang Fritz.”Antwort auf eine Umfrage des Internationalen Design-Zentrums”. In: Umwelt wird in Frage gestellt, Internationales Design-Zentrums Berlin (org.). Berlim: Internationales Designzentrum, 1971.
(2) “In other words, not only that they should be involved in the buildings that are for them but that they should actively help design them”. C. Alexander na entrevista com M. Jacobson: The State of the Art in Design Methodology. In: DMG-Newsletter, Nr. 3, Vol. 5, 1971, p.4.
(3) Fezer, Jesko. Deprofessionalisierungstendenzen. Disko 24 (2011).