Do design à arte contemporânea

PUBLICADO EM 18 de setembro de 2019

Sabrina Lopes

Sabrina Lopes

Designer gráfica e artista visual, formada em Comunicação Visual pela Faculdade da Cidade (Rio de Janeiro, 1993) e no Mestrado em Arte, pela Universidade de Brasília (2003).

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Com a invenção do ready-made, Marcel Duchamp introduz, no início do século passado, o objeto cotidiano no campo da arte, expandindo com esse gesto o entendimento do que seja a arte. Trabalhos de artistas contemporâneas como Jenny Holzer (1950) e Barbara Krugger (1945) trazem a marca desta ampliação do campo artístico, deixando os espectadores muitas vezes em dúvida se o que vêem é arte ou design. A obra dessas duas artistas evidencia com clareza como esses domínios se contaminam, se fundem, criando um emaranhado em que a arte contemporânea se apropria do design, sob forma de instalações ou intervenções urbanas.

A arte contemporânea, com sua qualidade de “campo ampliado”, como a chamou Rosalind Krauss, emerge na vida cotidiana sob forma de camisetas, bolsas, cartões postais, letreiros eletrônicos destinados à publicidade, outdoors, assumindo um caráter urbano e buscando um diálogo com a coletividade. Jenny Holzer é herdeira de uma tradição moderna e conceitual que utiliza a palavra como elemento imagético, e dispõe da tecnologia para realizar seus trabalhos artísticos, como letreiros digitais e eletrônicos. Seus aforismos estão tanto em galerias e museus como nas ruas em camisetas e cartazes, conferindo à arte um caráter de objeto urbano, levando-a para o meio da rua e incitando o indivíduo a uma reflexão crítica em meio às coisas do mundo. Este gesto faz com que o design gráfico e a arte formem um corpo único ou mesmo situem-se em uma zona em que não é possível discernir se estamos diante de um domínio ou de outro.

A localização, o sítio passa a fazer parte do conteúdo da obra, do mesmo modo como os objetos específicos da arte minimalista que, utilizando materiais industriais, adota uma estética da rejeição da composição e a simplificação da forma. Os artistas minimalistas trabalham com formas geométricas básicas e modulares, repetidas e seriadas, privadas de conteúdo descritivo; preferem a monocromia, as superfícies inflexíveis, localizando seus trabalhos em espaços que propiciem uma interação com o ambiente, porém por serem muito cerebrais, dificultaram a compreensão do observador comum. O trabalho de Holzer, para além desse vínculo com o minimalismo, está mais próximo da arte conceitual, onde a ideia ou o conceito, trazido de um aprofundamento no caminho da filosofia e sociologia, é o aspecto mais importante, trazendo para a arte a força do conceito pela escrita: “A ideia se torna a máquina que faz a arte” (Sol Lewitt).

Repensando, integrando e intervindo no espaço, muitas vezes o artista contemporâneo prefere expor seu trabalho mesclado ao ambiente urbano externo ao invés de apresentá-lo em galerias e museus. Inserido em lugares de passagem cotidianos, o painel verbo-visual confunde o espectador quanto à natureza do que vê – se é publicidade ou arte – evidenciando o teor mercadológico e reificador em que se transformou a visualidade urbana. Vivendo em um país onde o capital e o valor do consumo exercem enorme fascínio, Jenny é dessas artistas “antropofágicas” e “descoladas” que nada têm de vazio ou ingênuo, pelo contrário, potencializa uma estética sofisticada conectada à sociedade. A série Sobrevivência (1983), feita para área pública, insere na paisagem um objeto impulsionador de reflexão com frases como “Proteja-me do que eu quero” (Protect me from what I want) e “Homens não protegem mais você” (Men do not protect you anymore). Aludindo à questão de gênero, inscreve: “Crie meninos e meninas da mesma forma” pois segundo ela, há diferenças entre homens e mulheres que são boas, mas devem ser educados igualmente para que não exista um abismo entre eles. “Abuso de poder não é novidade”, da série Truisms, surgiu de leituras sobre arte, literatura, marxismo, psicologia, teoria crítica social e cultural, feminismo. Seu objetivo foi tornar públicas as questões do meio intelectual, com o cuidado de simplificar os aforismos para ampliar seu entendimento por um número cada vez maior de pessoas.

Jenny Holzer, Survival Series, letreiro eletrônico (spectacolor board), instalação, Nova York, Times Square, 1986.

 

Jenny Holzer, KriegsZustand, from Truisms, Inflammatory Essays, Living, Laments, Lustmord and Erlauf. Laser projection. Project, Leipzig Battle of Nations Monument, 1996.

 

Já Barbara Krugger vem de uma carreira como designer de publicidade e seu trabalho artístico traz a herança de uma linguagem estética próxima ao design gráfico e ao anúncio publicitário, com frases em fontes bem legíveis, composições em P&B e vermelho, lembrando a visualidade da vanguarda russa de Alexandr Rodchenko e Vladimir Maiakóvski ou mesmo a Arte Pop. Provocando uma espécie de inquietação com uma crítica mordaz aos condicionamentos sociais, seu trabalho complexifica-se com a inserção da palavra conjugada à imagem fotográfica, alterando as convenções do discurso visual banalizado pela mídia. Ao falar de um ponto de vista feminista, a arte de Barbara preocupa-se com as questões de gênero, a representação cultural do poder, da identidade e da sexualidade, levando-nos a uma reflexão enquanto desafia estereótipos e clichês criados pela sociedade midiática.

Identidade, relações humanas, feminismo, política econômica, mercado de arte, liberdade, democracia, repressão e autoritarismo, problemas sociais, consumismo e materialismo, são temas que Barbara Kruger aborda em seus trabalhos. Dos círculos intelectuais e artísticos para os saguões de metrôs de grandes cidades, a designer-cineasta-artista propõe um diálogo sobre a opressão feminina, o consumismo irrefletido e a superficialidade dos desejos, provocando um forte questionamento sobre as instituições e o poder. A força de seu trabalho está na talentosa colagem de texto-imagem que realiza para suas frases provocantes: “Quem você pensa que é?” (Who do you think you are), “Quem é livre para escolher?” (Who is free to choose?), “Você não é você” (You are not yourself), “Compro logo existo” (I shop therefore I am) são algumas perguntas e afirmações feitas sem rodeios em suas bricollages. Com forte teor político, a arte de Kruger propõe uma reflexão sobre o sistema capitalista, cada vez mais conectado aos valores apelativos do consumo, escravizador-escravizado no próprio corpo como mercadoria, alimentando os recalques da sociedade: “Compre-me. Eu vou mudar sua vida“ (Buy me. I’ll change your life). Por vezes, a artista exalta a palavra conciliadora, como na composição intitulada “A empatia pode mudar o mundo”, em um grande painel numa estação de metrô francesa.

Barbara Kruger. Untitled. Photographic silkscreen on vinyl. 1987.

 

Barbara Kruger. Outdoor na USP, São Paulo, 1992.

 

Com o advento da arte mesclada à cultura de massa em trabalhos vanguardistas, desde as colagens dadaístas que utilizavam recortes de jornais, esse campo ampliado da arte enfrenta uma ausência de demarcação nítida entre o que é arte ou design, incitando um questionamento à prática artística no que diz respeito à sua diluição no mundo comum. Essas artistas contemporâneas cujos trabalhos aqui foram comentados trazem uma poética por vezes irônica, chamando a atenção para a ação perniciosa da lógica do consumo que nos anestesia como sujeitos conscientes. Essa tática enfrenta a contradição de desejar o despertar crítico do público para os perigos do consumo excessivo e inserir sua produção no circuito da arte. Como então mudar o valor das coisas diante do impasse em que se encontra a arte? Se nada sobrevive fora do capital, a prática artística não pode estar fora da lógica do consumo. Na contradição entre o sentido e o não-sentido, a arte mantém-se acordada frente às questões que emergem na contemporaneidade.

 

Sabrina Lopes

Designer gráfica formada em Comunicação Visual pela Faculdade da Cidade (RJ, 1993) e artista visual com Mestrado em Arte, pela UnB (Brasília, 2003).

 

Referências

BARBOSA, Ana Mae (Org.). Mulheres não devem ficar em silêncio. Disponível em: http://www.cortezeditora.com/newsite/primeiraspaginas/mulheres-nao-devem-ficar-em-silencio.pdf>. Acesso em 15/09/2019.

KRUGER,instalação em estação de trem, Strasbourg, França, 1994. In: “The art of public address”, Revista Art in América, nov. 1997. p. 92-99

KRUGER, fotografia, Revista MAC, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, dez. 1993, p. 17

KRUGER, Barbara; LINKER, Kate. Love for sale. The words and pictures of Barbara Kruger, text by KateLinker. Nova York, Japan:Harry N. Abrams, Inc., Publishers, 1996.

LE WITT, S. “Paragraphs on conceptual art”, Artforum 5, p. 80, 1967 in WALDMAN, p.13.

LOPES, Sabrina. Poética da Elasticidade. Intersecções: poesia visual e gênero. Dissertação de mestrado em arte contemporânea, Instituto de Artes, Universidade de Brasília, 2003.

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ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Editora Clube do Livro Ltda., Estação Liberdade, 1989.

WALDMAN, Diane. Jenny Holzer. Nova York: The Solomon R. Guggenheim Foundation, Harry N. Abrams, Inc., Publishers, 1989.