O designer como educador

PUBLICADO EM 6 de janeiro de 2020

Sabrina Lopes

Sabrina Lopes

Designer gráfica e artista visual, formada em Comunicação Visual pela Faculdade da Cidade (Rio de Janeiro, 1993) e no Mestrado em Arte, pela Universidade de Brasília (2003).

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Reclamar se tornou um hábito corriqueiro e agimos desta forma muitas vezes por puro condicionamento. Passei a observar que é muito mais eficaz falar educadamente com o agente causador do incômodo do que reclamar às instituições responsáveis para resolver determinadas desordens sociais. Como entra o designer nesta reflexão? Indo além de pedir ao vizinho para não usar a furadeira no domingo de manhã, passei a pesquisar sobre ações educativas para melhoria da convivência social, seja no prédio onde moro e trabalho ou em espaços públicos por onde circulo. No prédio tem sido relativamente fácil, por exemplo, fiz avisos para não jogarem lixo nos vasos de plantas – tinha de tudo, de fio dental a papel de bala – e melhorou muito. Ultimamente, o barulho das motos sem silenciadores passou a ser absurdo e começou a ser um incômodo diário, com o aumento das compras pela internet ou delivery, a ponto de não se poder falar no telefone ou ter que interromper uma conversa. Então, pensei em fazer uma ação educativa para que os motoboys mantivessem os silenciadores nas motos. Fiz uns folhetos impressos e pedi que alguns estabelecimentos próximos distribuíssem aos motoboys.Outra ação que pretendo realizar é a respeito dos motoqueiros andarem com seus veículos nas calçadas, que também está se tornando quase rotineiro e até durante o dia, sendo um perigo para idosos ou crianças principalmente. Ou seja, além do barulho e do susto em área de pedestres, podem atropelar uma pessoa.

O designer pode contribuir para tornar a vida urbana mais tranquila e sem sobressaltos ao educar por meio de ações práticas, mostrando como aquele barulho é inconveniente, em como ele atrapalha o bem-estar das pessoas, tentando criar um sentimento de empatia no público-alvo. Se for pensar na questão complexa que envolve, nada fazemos. Quando lecionava História da Arte à noite na Faculdade Dulcina, percebia que as informações eram absorvidas por poucos alunos, mas estes já faziam toda a diferença e não me sentia frustrada em fazer o melhor possível para uma maioria desanimada, desinteressada e desatenta.

Lidar com motoboys e vizinhos pode se tornar uma experiência educativa interessante ao perceber os resultados, mesmo que em escala pequena. Ao invés de três motos barulhentas, teríamos uma talvez. No primeiro momento fiz algo bem simples, agindo apenas como professora, agora penso em fazer algo com um design mais atraente, pensando como designer gráfica.

No exterior há muitas atividades realizadas por civis, artistas e designers com o intuito de melhorar o comportamento das pessoas nos espaços públicos; no campo das artes visuais poderíamos chamar de performances ou intervenções urbanas. Isso nos tira da zona de conforto, certamente, porém traz uma enorme satisfação sentir-se como agente de transformação de uma cultura que despreza o respeito pelo outro e pelo espaço coletivo. A rua é considerada “terra de ninguém” e tudo que o governo deveria fazer para melhorar se torna alvo de reclamações vazias e inúteis, e vemos o quanto é ingênuo esperar uma atitude das autoridades para uma melhoria social. Infelizmente, a maior parte do povo brasileiro joga lixo nas ruas de forma indiscriminada e até mesmo perigosa, como latas de cerveja ou cigarros acesos dos carros em movimento, indicando uma educação falha ou até mesmo inexistente, seja na família, com amigos ou na escola. Delegamos a educação das ruas aos entes políticos e só recebemos o desgosto de vivermos em cidades sujas, barulhentas, repletas de pessoas desrespeitosas e sem educação básica. O público-alvo nem sempre são os jovens, que mostram sua rebeldia espalhando seus lixos e toxinas por onde passam, muitas vezes são senhores e senhoras que jogam guimbas de cigarros nos jardins e calçadas, sem nenhum sentido de alteridade. Esta reflexão faz eco ao artigo do Marcelo Judice, “E eu com isso?”[i], publicado aqui no site da Adegraf, de onde realço a ideia do designer como criador de “soluções de design” que auxiliam na transformação da realidade.

O designer, como profissional da visualidade , tem intrinsecamente um talento especial como educador, mesmo que alguns não tenham consciência disso. Se cada um de nós de repente fizer uma ação educativa em prol da vida urbana, com certeza teremos uma cidade no mínimo mais limpa e com citadinos mais conscientes e respeitosos.

 

 

[i]JUDICE, Marcelo. E eu com isso?Disponível em: http://www.adegraf.org.br/artigo/2019/09/e-eu-com-isso/. Acesso em 30/12/2019.